| WASHOUT
um texto básico
Com o mercado cada vez mais cheio de modelos ARF, poucos aeromodelistas
ainda constroem seus próprios modelos. Dessa forma, certos aspectos
de construção e aerodinâmica ficam esquecidos e, na verdade, são
muito importantes para definir uma boa qualidade de vôo do modelo.
Um desses aspectos é o famoso washout. Vamos ver do que se trata
e qual sua finalidade.
O objetivo do washout é garantir a estabilidade do modelo no pré-stall
ou stall mesmo, fazendo com que isso ocorra de maneira previsível,
sem surpresas. Um modelo sem washout tem o famoso péssimo hábito
de entrar em stall repentino de ponta de asa, sem prévio aviso,
o que, numa condição de pouso, pode significar uma lenha. Isso
acontece quando a ponta da asa entra em stall antes da raiz e
o modelo cai para o lado desta asa, principalmente em modelos
com asa trapezoidal. Para se evitar isso, a asa deve ser construída
de tal maneira a garantir que o stall sempre ocorra na raiz antes
do que nas pontas. Isso pode ser conseguido alterando-se o ângulo
de ataque entre as duas seções, mudando com isso a condição de
entrada em stall. Dessa forma, a maneira que se utiliza é construir
uma asa “torcida”, ou seja, o ângulo de ataque nas pontas é ligeiramente
menor do que na raiz, conforme figura abaixo:

Essa
diferença é na ordem de 0,5 à 2° (está exagerado na figura para
facilitar a visualização), dependendo do tipo do avião. Com isso
pode-se garantir que a ponta da asa irá entrar em stall por último,
pois seu ângulo de ataque é menor, ocasionando assim um stall
nivelado do modelo. Não se pode usar ângulos muito exagerados
para o washout porque isso irá causar tendências do modelo sair
da trajetória no topo de loopings ou no vôo invertido. Os aviões
reais também se utilizam dessa característica. O Spitfire, por
exemplo, possui um washout de 2,5°, sendo que na raiz da asa o
ângulo de ataque é de +2° e nas pontas é de -0,5°. Há outras maneiras
de se fazer a asa com washout mas sem fazê-la torcida. Um exemplo
é o chamado “washout aerodinâmico” e consiste em usar um perfil
para a raiz da asa e outro para as pontas, sendo que o das pontas
deve ser mais sustentador do que o da raiz. Dessa forma consegue-se
o mesmo efeito, ou seja, numa condição de stall, as pontas irão
cair por último, garantindo a estabilidade do modelo. Outra maneira
é no posicionamento ou no perfil somente do aileron, também mudando
o ângulo de ataque na região onde se encontra essa superfície.
Essa técnica era usada em aviões da época da primeira guerra mundial.
Ainda outro exemplo é o que pode ser encontrado no treinador Nexstar,
que aumenta a corda do perfil nas pontas das asas, fazendo com
que aumente também a capacidade sustentadora dessa região. É uma
peça plástica colada no bordo de ataque da asa, na região das
pontas. Essa peça pode ser retirada mais tarde para melhorar as
características acrobáticas do modelo, em detrimento da característica
estabilizadora. Também lembro do washout usado no motoplanador
Gaivota, da Aerobrás, e em alguns outros modelos, onde as últimas
nervuras eram cortadas para gerar uma condição de corda com ângulo
de ataque negativo e a asa também ficava com o aspecto “chanfrada”,
como na figura abaixo:

Certamente
devem existir outras maneiras ainda de se fazer uma asa com washout.
As citadas acima são as que lembro no momento. A finalidade é
entender o que é o washout e qual sua importância para o vôo do
aeromodelo. Essa característica é muito útil em modelos escala,
pois torna seu pouso bem mais estável. Geralmente não é usado
em modelos acrobáticos justamente para não comprometer a capacidade
de manobra do mesmo, mas paga-se o preço com a tendência de stall
de ponta de asa, principalmente em asas como a do Extra 300, onde
a corda é bem maior na raiz do que nas pontas.
Como
tudo na vida é questão de escolha, nesse caso, o aeromodelista
deve escolher sobre qual característica de vôo ele quer priorizar,
se bem que essa opção só pode ser considerada para modelos construídos
de kit ou planta, pois os ARF’s já vem com as asas prontas e,
geralmente, sem o washout.
Eduardo Perdomini Lara
BRA-9376
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