Fábio Trento, o número um do Brasil!

                    Nascido em 09 de junho de 1982, em Limeira/SP, Fábio Trento conheceu o aeromodelismo através de um primo, José Carlos Roque, que reside em Limeira, interior de São Paulo. José Carlos presenteou André (Dedé), irmão de Fábio, com um aeromodelo Ugly Stick 60. De inicio apenas o André pilotava, mas depois de algum tempo Fábio começou a aprender a voar o modelo, ensinado pelo irmão. No inicio, Fábio afirma, tinha um pouco de receio de voar, pois só tinham aquele aeromodelo e não desejam danificá-lo. Com o tempo Fábio foi ganhando confiança e melhorando suas habilidades de vôo. Começava assim a brilhante carreira do piloto, aos 14 anos de idade. Em pouco tempo consagrou-se como um dos maiores aeromodelistas do Brasil, com a participação em vários eventos realizados no país. Tendo Dedé como assessor e companheiro de viagens, que desempenha as funções de técnico e mecânico, a dupla arranca suspiros e elogios em todos os eventos por onde passa. Um público cativo já conta os dias para vê-los, a cada nova apresentação.

                    Fábio Trento tem participado de importantes torneios nos EUA, onde todos os anos tem tido a oportunidade de encontrar e conviver com os melhores pilotos daquele país. Não por acaso Fábio já deixou de ser uma revelação entre os participantes novatos, passando a desfrutar do respeito de pilotos de primeiro nível, pelos resultados que vem obtendo.

1.998 - Participou do TOC (Tournament of Champions) na condição de observador. Tomou contato com as regras da competição e conheceu os participantes. Retomou os treinamentos no Brasil, visando uma futura participação.

1.999 - Primeira participação em um torneio internacional em Enid - Oklahoma - EUA, o IMAC NATS, onde conquistou a 3ª posição.

1.999 - Participação no WORLD MASTERS em Greenville - Carolina do Sul - EUA. Disputou o qualify com outros 25 pilotos. Obteve a 12ª colocação.

2.000 - Participação no IMAC NATS 2000, realizado na sede na AMA - Muncie - Indiana -EUA. Colocação: 3º lugar no Estilo Livre e quinto no Unlimited.

2.001 - Participação no Tucson Aerobatic Shootout, realizado em Tucson - Arizona - EUA. Terminou em 8º lugar na categoria Unlimited e em 4º na Free Style.

                    Nesta competição Fabinho teve o seu modelo acidentado e terminou a prova com um avião emprestado por outro competidor. Chamou a atenção pelo desempenho nas baterias de manobras desconhecidas e por estar competindo com um modelo com o qual nunca havia voado anteriormente

                    Atualmente, aos 19 anos, Fabinho vive um grande momento da carreira. Foi convidado a participar do TOC 2002, competição que contará com 21 dos melhores pilotos em atividade. Quem o conhece ou já o viu nos eventos dos quais participa, sabe que ele é de uma simplicidade estonteante. Atende a todos com a maior dedicação e carinho. Tímido, o nosso garoto de ouro, não pára de afirmar que ainda tem muito o que aprender e melhorar, mostrando assim a humildade digna dos grandes homens. E foi com essa humildade que ele nos concedeu essa entrevista.

AERONLINE: O que te levou a optar pela categoria free style?

FÁBIO: Na realidade não optei pela categoria Free Style e sim pela acrobacia em geral. A acrobacia envolve desde a F3A, acrobacia em escala, como também o free style.

A maioria das pessoas com quem converso me fazem sempre essa mesma pergunta, e aqui vai a explicação. Na maioria dos eventos que participo, fazendo demonstrações, executo 80% de manobras free style e somente 20% de manobras de precisão, pois o público e os aeromodelistas que estão assistindo querem sempre ver coisas novas e radicais (efeitos plásticos). Entretanto nos campeonatos em que participei nos EUA, a maioria dos vôos são de precisão e é o que mais conta pontos (manobras conhecidas: "know" e desconhecidas: "unknow").

Desde que conheci o TOC, em 1998, percebi a importância do treinamento das manobras de precisão. Tão logo retornei ao Brasil, comecei a treinar esse tipo de vôo.

Acredito que esta pergunta venha a tirar uma duvida de muitos aeromodelistas que acham que eu somente treino free style. Pelo contrario, em meus treinamentos diários, reservo 3 de cada 5 vôos para precisão. Tenho feito isto desde outubro de 1998 e só para se ter uma idéia, o TOC 2002 terá uma única mudança nas regras: o free style que tinha um peso de 20% diminuiu para 15% e as manobras de precisão ficaram com os outros 85%.

AERONLINE: Conversando com você e visitando a sua home page notamos uma grande preocupação sua com detalhes teóricos de vôo. Gostaria de comentar mais sobre isto, principalmente no que toca a melhorias de pilotagem?

FÁBIO: Acredito que para se tornar um bom piloto, não basta somente ir para a pista e voar, voar e voar. O treinamento é importante porém com coerência e objetivo. É necessário estudar e saber como funcionam as coisas. Estudar que digo é na teoria e também na pratica. Conhecendo bem seu avião, você tem que buscar cada vez mais uma regulagem perfeita (que é primordial para a acrobacia de precisão). É fundamental um avião bem ajustado e um piloto bem afinado, que possa sentir as tendências e usar o conhecimento adquirido para resolver os problemas. Em tratando-se de pilotagem, é necessário muito estudo em cima das manobras de precisão, pois e ali que os juizes vêem as diferenças. Por isso estudei muito desde um simples looping ate complicados snap rolls, rolling turns com 1, 2, 3 ou 4 rolls etc. Como em qualquer área, o conhecimento é imprescindível.

AERONLINE: Nas oportunidades que encontramos pessoalmente com você, seja em que lugar for, percebemos uma grande atenção em atender a todos, em ensinar e repassar os mais variados detalhes sobre aeromodelismo, sem nunca se aborrecer e repetir a mesma explicação mais vezes. Nos eventos de que tem participado no exterior, como e a interação entre o publico e os pilotos?

FÁBIO: É muito legal o clima e as competições no exterior. Tenho notado que quando as pessoas estão em um evento esportivo elas ficam muito mais acessíveis. Tenho sido muito bem recebido nos campeonatos dos quais participo. Converso muito com outros pilotos onde eles sempre estão bastante pré-dispostos. Com relação a integração publico/piloto eu ainda não posso dizer muito, pois os campeonatos geralmente não tem uma grande concentração de publico. Somente nos eventos, como os realizados aqui no Brasil, é que da para se notar alguma coisa a esse respeito. Este ano vou começar a participar de eventos no exterior e ai sim poderei ter esse sentimento.

AERONLINE: Temos noticias de que você esta treinando forte, com modelos diferentes. Pode falar um pouco destes treinos, e do que sente com cada modelo?

FÁBIO: Agora estamos com um novo patrocinador. Estou treinando 5 dias por semana na cidade de Itu. É um lugar que qualquer aeromodelista sonharia estar. Tenho a disposição uma estrutura competitiva. Temos tudo que se pode imaginar em termos de avião, equipamentos, assessoria e tudo mais. Estou voando tudo que vocês possam pensar, mais a adrenalina dos jatos e coisa do outro mundo. Nos jatos ainda estou aprendendo e estudando tudo que posso tirar dele. É um campo novo, um desafio que queremos inovar em breve. Trabalhamos para isso. Estou voando também um Cap 232 da Carden Aircraft e logo estarei testando outros dois aviões: um Extra 300L da Aero Works e um Extra 330S da Fiber Classics. Será uma dessas maquinas que optarei por voar no TOC. Tão logo eu decida pelo avião, teremos mais aviões desses para reserva, pois como vocês sabem, no TOC e necessário ter no mínimo 2 aviões.

AERONLINE: Poderia detalhar como você treina para provas específicas e para campeonatos, que contenham várias etapas em diferentes épocas e em localidades distintas?

FÁBIO: Nós costumamos treinar para campeonatos com muita dedicação. Normalmente voamos no mínimo 4 dias por semana de 3 a 5 vôos por dia. Conforme o campeonato vai se aproximando esse treino vai se intensificando, tanto nos dias da semana como no numero de vôos por dia. Nosso objetivo é mais ou menos 2 meses antes da competição voar todos os dias de 4 a 6 vôos por dia. Nem sempre isso é possível, devido as condições climáticas, mas tentamos voar o máximo possível, nunca excedendo muito além dos 6 vôos por dia, pois a concentração exigida nesses treinos é grande e o desgaste mental também.

AERONLINE: Sempre ocorre alguma discussão sobre o freestyle, a F3A e a recém criada acrobacia artística. Gostaríamos que fizesse alguns comentários sobre estas diversas categorias.

FÁBIO: São 3 categorias muito importantes para o desenvolvimento do aeromodelismo. Eu, particularmente, gosto das três. Acredito que cada categoria tem sua importância. A F3A para o desenvolvimento de novos equipamentos, o free style para chamar a atenção do publico leigo, a acrobacia artística que, de uma forma simplista, é a união das duas anteriores. Como falei acima, comecei a voar jatos e estou entusiasmado e me adaptando bem. Com os jatos dá para mostrar a alta tecnologia aplicada ao aeromodelismo. A pratica conjunta dessas categorias melhora meu rendimento, pois cada uma tem suas particularidades e dificuldades. O treino simultâneo revela ajustes diferentes que podemos transportar de uma para outra.

AERONLINE: Pediríamos que dissesse algumas palavras sobre o caller, sua importância, a interação entre você e ele.

FÁBIO: O caller não é apenas importante: ele é fundamental para o piloto que deseja chegar num alto nível no vôo de acrobacia. Nos treinamentos ele não é apenas um caller, ou seja, ele não canta as manobras somente: ele também é um técnico que vê e aponta os defeitos nas manobras, ele apara as arestas. Na competição ele é quem canta as manobras e é fundamental fazer isso no momento exato. Se ele atrasar ou adiantar, acaba atrapalhando o piloto nas competições onde existem gamas desconhecidas, ou seja, naquelas gamas que são fornecidas um dia antes e não se pode treinar. Por isso faço uma memorização das manobras e juntos identificamos onde estão as dificuldades. Neste vôo é fundamental o técnico, pois o piloto pode se concentrar em cada manobra, não tendo que desviar a atenção para a próxima manobra. Resumindo, o piloto e seu técnico são uma só pessoa em uma apresentação.

AERONLINE: Em uma competição existem gamas distintas a serem realizadas pelo piloto.
a) Como você se prepara para uma prova, no tocante a gama conhecida?
b) como é a preparação para a gama desconhecida?
c) ao tomar conhecimento da gama desconhecida, no dia anterior ou momentos antes da prova, como você procede, estuda sozinho, junto com o caller?
d) Como você observa e faz a análise de seus treinos? Por exemplo, os treinamentos são filmados e gravados para posterior análise?

FÁBIO: a) A gama conhecida geralmente e fornecida alguns meses antes da competição. Meu método de treinamento e um pouco diferente de alguns pilotos. Já li em varias reportagens, pilotos dizendo que treinam as manobras separadas e quando estão com bom resultado ai então eles unem uma a uma e formam a seqüência. Eu particularmente faço diferente: treino sempre a gama completa e as manobras com os erros maiores são refeitas até que fiquem boas. Depois então começa a lapidação, ou seja, qualquer milímetro fora já é um erro e são refeitas até a exaustão. O TOC é considerado o maior e mais difícil torneio do mundo, e não é a toa. Neste ano, como foi implantado em 2000, não ha seqüência conhecida e sim manobras conhecidas. Eles enviam uma tabela com mais ou menos 16 manobras, cada uma denominada com uma letra e assim os pilotos somente treinam as manobras. A seqüência será definida um dia antes de cada fase da competição, sem possibilidades de treinamento para o dia seguinte. Além disso, as manobras desconhecidas continuam como sempre, bem como os 4 minutos de free style.

b) No tocante a gama desconhecida é difícil preparar-se com treinamentos para executa-la. O que fazemos é simular como se estivéssemos na competição. Criamos varias seqüências e executamos sem prévio treinamento das manobras.

c) Normalmente eu e meu técnico estudamos a seqüência detalhadamente e identificamos os pontos críticos. Então a seqüência é discutida entre nós e começo a memoriza-la sozinho. Feito isso faço um treinamento junto com meu técnico: ele canta e eu com pequeno modelo executo as manobras.

d) Não costumo gravar para posterior analise, o que fazemos é um briefing após cada vôo para se discutir os erros.

AERONLINE: Fábio, em algumas modalidades e situações competitivas sabe-se que vários fatores extra prova e extra equipamento podem influenciar no desempenho do participante. Você tem algum acompanhamento psicológico para as competições?

FÁBIO: Não. Eu e meu irmão temos metas a serem alcançadas e é isso que nos motiva. Levamos conosco algumas frases ditas por Senna , que sempre tem muita motivação embutida, era um exemplo de esportista.

AERONLINE: Você pratica algum outro tipo de treinamento, além dos vôos, como forma de preparação, antes de alguma competição?

FÁBIO: Procuramos fazer exercícios do tipo corrida, para ter e manter um bom preparo físico.

AERONLINE: Tem um ditado popular que diz que"o melhor conjunto avião - motor - radio e aquele que temos e com o qual voamos melhor possível". Como você faz a escolha dos aviões que usa, naturalmente considerando o fator "o quanto se pode e deve pagar"?

FÁBIO: Realmente o ditado popular por você citado e uma realidade. O melhor é sempre aquele que podemos dispor. Cabe a nos tirarmos nos treinamentos o máximo possível de nosso equipamento. Como exemplo cito o primeiro torneio que participei nos EUA, o IMAC NATS 1999. Competi de igual pra igual com pilotos do TOC com equipamentos de 1a. linha, ou seja, todos modelos 40% de escala (Caps Carden, Edge e Extra Aero Works, etc) enquanto eu voava com um Extra 33% de escala. Nessa oportunidade, na gama desconhecida, fique em 1º lugar e só não ganhei o free style devido a quebra de um servo de cauda na hora da decolagem.

Mais especificamente, quando tenho definido o modelo com o qual participarei de uma prova, normalmente treino com o mesmo avião que voarei no campeonato, pois é muito importante uma ótima afinidade entre o piloto e sua maquina em uma competição de alto nível.

AERONLINE: Visitando sites de aeromodelistas de outros paises, temos notado um grande respeito pelo seu nome. Poderia nos falar como você e recebido nas competições no exterior?

FÁBIO: Somos muito bem recebidos e o respeito hoje e grande. Isso e resultado de um longo trabalho, que iniciamos a 4 anos participando de nossa 1a. competição internacional. Em nenhum ano deixamos de competir lá fora e isso foi nos tornando conhecidos e respeitados, pois sempre fomos com intuito competitivo forte.

AERONLINE: Fábio, temos conhecimento que nestes últimos meses sua vida tem sido bastante atribulada, tendo acontecido muitos fatos importantes e relevantes para o seu futuro. Tomamos a liberdade de perguntar-lhe se, em algum momento de relaxamento, já parou para pensar que você é um exemplo e pode influenciar e muito no desenvolvimento do aeromodelismo no Brasil?

FÁBIO: Fico contente em poder influenciar de maneira positiva, que o esporte cresça cada vez mais e assim leve o nome do Brasil em mais um esporte lá fora . Eu acredito que o aeromodelismo está crescendo muito no Brasil. Pelas cidades onde tenho voado o publico sempre se interessa muito por este maravilhoso esporte. Espero cada vez mais poder divulgar o aeromodelismo no e do Brasil.

AERONLINE: Agora algumas perguntas inevitáveis:
a) vai participar do campeonato brasileiro de F3A, que devera acontecer este ano?
b) agora que foi confirmada a sua participação no TOC 2002, como esta a sua cabeça?
c) no atual momento, como se sente sendo considerado o principal aeromodelista em atividade no Brasil?

FÁBIO: a) Já iniciamos treinamento com avião especifico e esta e uma de nossas metas pra este ano: participar do brasileiro F3A e se possível obter a classificação para o mundial de 2003;

b) Minha cabeça só diz isso: treinar, treinar, treinar, treinar e treinar!!, pois agora a parte material já não é mais problema.

c) Sinto-me muito honrado e também é muito bom poder representar nosso país lá fora. Treinamos muito para chegar até este ponto e pretendemos continuar treinando mais ainda para conquistar boas colocações e levar nossa bandeira aos maiores campeonatos do mundo.

AERONLINE: Mais uma pergunta inevitável. Gostaríamos de saber quais conselhos você daria para aqueles que hoje querem ou estão entrando no aeromodelismo de competição?

FÁBIO: Hoje tenho o aeromodelismo como profissão, apesar de muitos praticarem como um simples hobby pessoal. Vejo hoje cada vez mais pilotos extremamente profissionais e que estão aí para competir e isso é muito bom. Temos que mostrar, lá fora, que existem excelentes pilotos aqui dentro de nosso país. Aconselho a todos a participarem de muitas competições, porque as competições são o fundamento de todo esporte, tanto para o desenvolvimento tecnológico como para o desenvolvimento pessoal.

AERONLINE: Fábio gostaríamos que deixasse suas considerações finais.

FÁBIO: Aproveito a oportunidade para agradecer e dizer a todos os aeromodelistas do Brasil que cada um foi e sempre será importante para nós. Foi deles o incentivo inicial, os aplausos e elogios que nos motivaram sempre mais para os treinamentos e aperfeiçoamento.

Um grande abraço a todos.
Fabio Trento


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