Eduardo Diniz Esteves

                    Eduardo Diniz Esteves pratica aeromodelismo desde 1.974. Obteve o título de Campeão Brasileiro de Escala em 1.989. Em 1.991 participou pela primeira vez do Top Gun e no ano seguinte do Scale Masters, duas das competições de maior prestígio na categoria escala, sendo realizadas nos Estados Unidos. Eduardo participou de sete Top Guns e de seis Masters. Pode-se dizer que a coroação destas participações foi a conquista do primeiro lugar, ano passado, no Masters. Foi a primeira vez que este troféu saiu dos USA.

 

 

 

                    Pessoa simples e afável, pode ser encontrado ao lado da esposa, Ana Paula, em vários festivais de aeromodelismo, país afora. Muito solícito, atende a todos com atenção e dedicação, sendo porém extremamente sincero. Disposto a ensinar, não perde uma oportunidade em prestar atenção em algum comentário em que possa aprender um pouco mais.

                    É o Eduardo aeromodelista que vamos entrevistar para este número da revista Aeronline, naturalmente não esquecendo de uma de suas atividades profissionais, que é a direção da importadora Diniz Esteves Enterprises, em Belo Horizonte.

AERONLINE - Você sempre se distinguiu como um empreendedor em suas atividades empresariais e notamos que assim também procede no aeromodelismo. Poderia comentar sobre este fato e as influências do e no hobby em relação a sua vida pessoal e profissional?

EDUARDO - Iniciei minha vida profissional como construtor em 1.976. Era obcecado para ter o meu próprio negócio apesar da falta de experiência e capital. Consegui um financiamento para a construção do meu primeiro prédio em Belo Horizonte. Não podia errar, o insucesso neste empreendimento provavelmente não me daria uma segunda chance. Nunca perdi tempo criticando o governo ou esperando que alguma coisa viesse pronta às minhas mãos. Tinha claro na minha mente jovem que para ter sucesso todas as minhas ações deveriam ser executadas com perfeição e precisão. Tive muitas dificuldades, mas nunca me deixei abater pelos problemas. Nesta época ainda não se falava em qualidade total e nem nas técnicas orientais de gerenciamento, mas na minha cabeça já via todos os problemas como oportunidade de aprendizado.

Construí o meu primeiro aeromodelo em 1.974. Eu tinha muito pouco recurso para investir no hobby. Comprei um trainer 40 do Joe Briddi mas não o montei, copiei todas as peças para construir o meu modelo; vendi o kit e com o dinheiro comprei um motor OS MAX 40 usado. Levei algum tempo a desenvolver boas técnicas de vôo, não tinha também muito tempo e na época o aeromodelismo desportivo era praticamente inexistente aqui em Minas.

Em 1.985 resolvi adotar o aeromodelismo como o meu esporte, passei a estudar e aplicar muita energia no assunto. O meu interesse sempre foi voltado para a modalidade escala, conquistei o título de campeão Brasileiro em 1.989 com um modelo escala, réplica de um Rearwin Skyranger 1.941. Este título foi recebido com muita alegria. À partir desta data não consegui mais ver o aeromodelismo como brinquedo. Estive nos EUA no mesmo ano para assistir o 1º Top Gun, desenvolvi uma grande amizade com o Frank Tiano, organizador do evento. Fui convidado a participar do 3º Top Gun em 1.991 e no ano seguinte no Scale Masters, em Irvine no Texas.

AERONLINE - Os eventos competitivos de aeromodelismo rádio controlado no Brasil, sejam eles de F3A ou de Escala, não conseguem atrair um grande número de participantes e de público. Por outro lado, os Festivais e Encontros proliferam-se e atraem tanto participantes quanto público. Em sua opinião é possível traçar algum paralelo ou considera que são fatos e acontecimentos totalmente distintos e sem ligação?

EDUARDO - Infelizmente esta situação é absolutamente normal e condizente com o perfil da sociedade atual, nós vivemos na era da "Casa dos Artistas". O lazer está voltado para atividades de gratificação instantânea. O aeromodelista atual sente prazer em se deslocar de longas distâncias para um encontro, muita conversa e algumas latas de cerveja com a turma é o que fica como saldo da coisa. Verifica-se pouco interesse no aprimoramento e busca por melhor técnica de vôo e construção.

Não sou contra os festivais, mas não me agrada a idéia de termos somente encontros. Os dirigentes dos clubes devem se preocupar em promover competições, os regulamentos estão aí, assim como enormes talentos mal aproveitados, como diz o nosso amigo Álvaro Caropreso: "Chega de Torque Roll"".

AERONLINE - Você participa de duas das mais importantes provas de aeromodelismo escala, em termos internacionais, o Top Gun e o Scale Masters. Nestes eventos existe um grande público e um número significativo de pretendentes a participarem da competição. Quais fatores considera relevantes para isto?

EDUARDO - Estes dois eventos tem regulamentos muito parecidos porém com perfil diferentes. O Scale Masters foi instituído há 22 anos e reúne escalistas americanos e estrangeiros, que tenham se qualificado em campeonatos regionais dentro do território Americano (em torno de 12). Um dos "Qualifiers" para o Masters é o Top Gun. Durante estes 22 anos houveram alguns convidados estrangeiros com o objetivo de divulgação para o resto do mundo, e eu fui um deles.

O Top Gun e o TOC são empreendimentos como a Fórmula 1. Os participantes são convidados a priori com base na sua performance como aeromodelista nos EUA e ou nos seus paises de origem, tendo conquistado títulos nacionais ou através de testemunhos de revistas especializadas. Existe um grande interesse por parte dos aeromodelistas. Quanto a público o Top Gun sempre teve um público maior, em torno de 5.000 espectadores por dia, na média. O Scale Masters, é uma prova itinerante, o público varia, em função da região em que ocorre a competição, entre 1.000 e 3.000 pessoas por dia. A questão cultural é o fator que muito concorre para este interesse por parte dos adeptos e, conseqüentemente, do público.

AERONLINE - Há quanto tempo você participa de competições no exterior? Poderia citar o que tem aprendido, os benefícios que obtém?

EDUARDO - A primeira vez no Top Gun foi em 1.991 (total de sete participações) e no Scale Masters em 1.992 (total de seis participações).

Tudo que aprendi foi no EUA e na Europa. Infelizmente a modalidade de escala não se desenvolveu no Brasil apesar da minha convicção absoluta de que todo aeromodelista tem uma paixão enrustida por ela. O vôo de um P-51 Mustang executando um vôo escala ainda pára o trânsito, em qualquer pista do planeta. O grande benefício que recebi foi ter reunido experiência e confiança, que vem me possibilitando a praticar o único esporte pelo qual tenho interesse, além da recompensa de um troféu de 1º Lugar, que nunca saiu dos EUA nos 22 anos de Scale Masters. Foi também o meu melhor presente de aniversário de meus 50 anos.

AERONLINE - Gostaríamos que comentasse como é o processo de preparação para a participação em uma prova como o Top Gun e o Masters, uma vez que são provas disputadas "bem longe de casa", em termos de:

a) escolha do modelo, construção e testes,

EDUARDO - Um modelo escala com qualidade leva tempo para ser construído, é preciso ter um grande interesse pelo mesmo e ter acesso ao máximo de informações a respeito do protótipo (aeronave na escala cheia que será reproduzida). Montar a documentação exigida para o estático e dar início à construção do modelo. Não se deve construir um modelo cuja documentação seja precária. O modelo escolhido deve ter comprovadamente boas características de vôo. Os testes devem ser realizados em locais seguros, com farta área de escape e longe de curiosos.

b) Preparação pessoal e treinamento de vôo para a competição,

EDUARDO - O Piloto deve realizar vôos de adaptação ao modelo antes de partir para o treinamento, modelos escalas são mais complexos e críticos e em virtude do envolvimento emocional durante a longa construção acabam criando um clima de insegurança e medo de voá-lo. O aeromodelista não deve acelerar este processo, é fundamental o perfeito conhecimento do modelo em todas as situações, a esta altura o modelo já está testado e o piloto também!

O competidor deve ler o regulamento com muita atenção e procurar escolher uma rotina de vôo com as manobras opcionais próprias do protótipo e que ele se sinta seguro em realizá-las. Nunca dê uma de "Don Quixote" escolhendo manobras que não se tenha a certeza de serem as mais adequadas ao modelo. Um Fokker Triplano fica horrível ao tentar fazer um Oito Cubano.

c) transporte do modelo e equipamentos.

EDUARDO - Competidores que pretendem viajar longas distâncias, sobretudo de avião, devem se preocupar em construir embalagens leves e rígidas. Uma boa forma de prender o modelo é pelo eixo do motor e outro apoio (berço) na parte mais esbelta da fuselagem. Se for necessário fazer uma embalagem separada para a fuselagem e asa. Não transportar ferramentas e material de campo junto com o modelo. Deve-se preocupar em levar todas as ferramentas necessárias a uma manutenção normal, mas sem exagero.

AERONLINE - Agora que "estamos" com o modelo preparado e pronto para a prova, pedimos a você que fale sobre como as coisas acontecem durante a prova.

EDUARDO - As provas de escala, exceto no regulamento FAI, voam quatro modelos de cada vez, isto exige um treinamento especial, o competidor não pode se distrair ou se deixar perturbar com os outros modelos, a concentração precisa ser total e o piloto preparado não deve perceber nada ao redor além do seu próprio modelo.

AERONLINE - Já entendemos bastante sobre o modelo e sobre como a prova se desenrola. Solicitamos que comente sobre o "caller", a sua importância, a interação, os conhecimentos que a pessoa que desempenha esta função necessita possuir.

EDUARDO - A função do "caller" é de extrema importância. Na verdade eu o chamaria de mecânico e navegador. O caller deve ser a única pessoa a treinar com o piloto no período que antecede uma prova, ele precisa conhecer toda a parte mecânica do modelo no que diz respeito à manutenção e o regulamento. O piloto pode se dizer preparado quando consegue realizar vários vôos, em dias diferentes e com condições meteorológicas diversas sem variações com relação à precisão, posicionamento e realismo. Numa dupla entrosada o "caller" deve ter a percepção antecipada de toda a trajetória que o modelo vai seguir dentro e fora das manobras. Manter o modelo em segurança com relação aos outros participantes, comunicação com o "flight line" e juizes. O excesso de concentração na manobra pode fazer o piloto perder a perspectiva do modelo em relação ao cenário, cabe também ao "caller" chamar a atenção do piloto quando este começar a perder a proa ou altura ideal de vôo assim como alertá-lo a se afastar de eventuais obstáculos de risco como árvores, construções ou mesmo outro modelo no espaço da manobra. É importante ressaltar que em competições de escala qualquer manobra pode ser abortada antes de ser anunciado "início de manobra", o bom "caller" deve impedir que o piloto execute uma manobra se o momento estiver desfavorável.

AERONLINE - Você participa principalmente de competições de aeromodelismo Escala. Estamos curiosos em saber a sua opinião sobre importância do aeromodelismo acrobático em seu desempenho em voar escala?

EDUARDO - A acrobacia de precisão dá um preparo e uma disciplina extraordinária ao piloto de escala. Nos intervalos entre as provas de escala me dedico a voar modelos acrobáticos. Infelizmente também esta modalidade também não se desenvolveu no Brasil. O Fábio Trento tem muito potencial e poderá ser uma representação expressiva em competições internacionais.

AERONLINE - As competições de F3A, Escala, Acrobacia Giant (IMAC, TOC) , entre outras, são evidentemente categorias de ponta do aeromodelismo radio controlado. As provas são regidas por regulamentos rígidos e constantemente reavaliadas. Apesar disto a criatividade e capacidade técnica de construtores e pilotos acaba por exigir um contínuo aprimoramento tecnológico dos equipamentos. Gostaríamos de ouvir a sua opinião sobre isto.

EDUARDO - O aeromodelismo não é um esporte individual, enquanto este paradigma não for quebrado dentro dos clubes não teremos chance de acompanhar os esportistas de paises onde a coisa é levada a sério. Em qualquer das modalidades citadas é preciso haver o binômio de competitividade com camaradagem. Enquanto perdurar o sentimento de posse de um conhecimento pobre, o nosso aeromodelismo, como esporte, permanecerá atrasado.

AERONLINE - Você enxerga a competição como uma forma de aperfeiçoamento contínuo, tanto para os equipamentos, quanto para o piloto, para o hobby como um todo?

EDUARDO - Sim, não somente na competição mas como em tudo na vida.

AERONLINE - No automodelismo vence quem chega primeiro. Na maioria das provas de aeromodelismo os resultados dependem da avaliação subjetiva do julgamento de juízes. Gostaríamos que comentasse sobre isto.

EDUARDO - No aeromodelismo também vence o melhor. Nos meus dez anos de competição tenho muita satisfação em afirmar que nunca vi o melhor ficar em segundo lugar. Considero-me um aeromodelista e uma pessoa competitiva, gosto de disputa, mas sempre fui muito bem resolvido com relação as minhas colocações nos campeonatos que participei. Tenho todas as minhas planilhas de vôo guardadas e tenho imenso respeito pelos 10 que obtive assim como pelo zero que recebi ao trocar uma manobra à alguns anos atrás. Ao término das competições volto para casa feliz com a experiência adquirida e cada vez mais empenhado em me aperfeiçoar. Tenho muita pena de competidores que ao regressarem de competições justificam a sua má colocação com frases preconceituosas do tipo: "Eu não sou Americano venho do terceiro mundo", "Os juizes não gostaram do meu modelo". "Durante o meu vôo percebi que o juiz não observava as minhas manobras". Este tipo de sentimento prejudica o competidor.

AERONLINE - No Japão é realizada uma competição anual, chamada IAM (International Air Meet). Em 2001 não houve a participação de nenhum piloto ocidental (Le-Roux, Somenzini, Hyde, Shulman, Matt). Uma platéia de 45.000 espectadores acompanhou a prova, essencialmente de acrobacia artística, acompanhada com música e disputada com aviões do tipo F3A. Uma emissora de TV, de alcance nacional também acompanhou a prova. Considerando as grandes diferenças culturais, restrições geográficas e legislação ambiental entre nós e aquele país, poderia fazer algum comentário, já que nem em importantes partidas de futebol temos um público desta dimensão?

EDUARDO - No Japão tudo é grande, um amigo escritor de uma revista Japonesa afirma que esta revista tem uma tiragem de 500.000 exemplares. Este número deve ser maior do que "Quatro Rodas".

AERONLINE - A sua esposa Ana Paula é uma presença constante e ativa a seu lado, quer seja na atividade comercial, quer em encontros, festivais, provas regionais e internacionais. Como você classifica esta integração?

EDUARDO - Quando comecei diziam os veteranos que um competidor depende de um modelo de baixa carga alar, Motor e Trem de pouso confiáveis. No meu caso eu dependo da Ana Paula, modelo com baixa carga alar, motor e Trem de pouso confiável, nesta ordem.

AERONLINE - Uma pergunta de praxe e até inevitável. Poderia passar algumas sugestões e dicas, do que considera importante no hobby, principalmente para o aeromodelista iniciante?

EDUARDO - Ser humilde e perguntar; ter um instrutor que seja um bom aeromodelista; não saltar etapas; aceitar críticas; desenvolver comprometimento com o hobby e não acreditar nos tolos que afirmam "Não gosto de competição, venho à pista para me divertir".

...E finalmente a dica mais importante: "Voe JR".

AERONLINE - Agradecemos a sua atenção e disposição em responder a estas perguntas. Gostaríamos que ficasse a vontade para os comentários que considera importante deixar aqui registrados.

EDUARDO - Tive imenso prazer em responder a entrevista, Desejo parabenizar a "Equipe Aeronline" pelo excelente trabalho que vêem fazendo na divulgação do aeromodelismo Brasileiro.


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