Todo pai tem vontade de ver seu filho seguindo seus passos, crescendo ao seu lado e tendo-o como amigo inseparável. São poucos que conseguem esta proeza, já que normalmente os pais são considerados ultrapassados ou "quadrados", no linguajar da juventude.

Com o Pai aeromodelista não é diferente. Principalmente quando envolve o espírito de competição, temos orgulho de ver nossos filhos serem vencedores, até mesmo porque em muitos casos não teremos mais a oportunidade de aperfeiçoamento ao ponto de competir.

Tenho um único filho, o Lucas Silvano que nasceu vendo seu pai voando, na oficina rodeado de aviões, helicópteros e carros radiocontrolados. Ouvia tanto falar de avião que a primeira palavra que balbuciou foi "vião". Que Maravilha! O pai aeromodelista já sonhava com seu filho pilotando.

Durante seu crescimento levei o Lucas à pista por várias vezes e como a maioria das crianças só queria brincar, com interesse rápido pelos vôos e aeromodelos. Como em casa os brinquedos de que mais gostava eram carros e aviões, mantive a esperança.

No nosso clube em Joinville, meu segundo clube porque mudei de cidade, fui recebido muito bem e rapidamente fiz grandes amigos. Um deles sempre reclamou: "Meu filho só quer saber de computador". Nem mesmo para os nossos deliciosos churrascos de sábado ou domingo, onde toda a família comparece, ele não vem. Fica em casa com seus jogos de computador. E eu pensando se meu Lucas, meu único filho, iria me acompanhar no que mais gosto.

Bem, paciência e nada de pressão foi a chave de tudo. Como eu já tinha tido automodelo, levei-o a uma pista e ele ficou empolgado com a velocidade. Foi a oportunidade de colocar um radiocontrole em suas mãos. Comprei um elétrico barato e eventualmente levava para o clube com intuito de incentivo para o aeromodelismo. Nos comentários sempre dei destaque às manobras acrobáticas que, acredito, influenciaram bastante. Um certo dia, quando praticava vôo de helicóptero no simulador (CSM), o Lucas pediu para pilotar. Tudo o que ele queria era fazer acrobacias e foi aí que tudo começou.

E vale aqui um a parte na história. Tinha feito um negócio com meu amigo Lineu e estava com um Pattern, que posso considerar "sangue bom", o Loaded Dice, com motor OS 61, saída traseira, pipa e trem retrátil. Um pouco pesado, mas considerando sua qualidade de construção e época, voava maravilhosamente bem, fazendo com perfeição todas as manobras solicitadas. Era minha primeira experiência com a gama de F3A e me apaixonei. Digo sem medo de errar que todo aeromodelista que quiser progredir deve voar um Pattern. Por experiência própria, afirmo que todas as manobras que faço ficaram mais bonitas e meu vôo tem maior consistência, após o treinamento com este modelo.

Em um belo Sábado pela manha, depois de tentativas frustradas por coleguinhas do condomínio, chamando-o para brincar, convidei-o para pilotar e ele aceitou.

Fui criando expectativa durante o trajeto, de 10Km, até o clube. E a pergunta principal foi a seguinte: "Pai, vou poder fazer acrobacia?" É claro que confirmei, todo empolgado. Chegamos no clube, descarreguei o equipamento, montei o avião, abasteci (com o Lucas acompanhando) fiz a trimagem em solo do rádio slave (um Futaba 7UAPS, belo rádio que guardo com muito carinho) e fomos para a posição de decolagem, na pista. Antes da decolagem aquela parada para as últimas instruções. Decolei e fiz uma gama simples. Que maravilha! Estava naquele momento com todos os sonhos realizados! Um belo avião, acrobacias perfeitas e meu filho ao meu lado pronto para ser meu grande companheiro dos finais de semana e quem sabe até um grande campeão!

"Filho, stick do motor no meio....Tudo certo?.....Está com você!"

Não sei se foi a tensão inicial que manteve seus pequenos dedos firmes ou foi somente uma imagem que ficou gravada para sempre em minha memória. A verdade é que o Loaded Dice vôou suavemente e firme até meu primeiro comando:

- Filho, agora - comando pra esquerda e "cabra" um pouquinho.

- Pai, e as manobras?

- Vamos lá, agora um Looping... cabra e segura...

A reação foi espetacular, pulinhos de alegria com o rádio na mão, cena que lamento não ter filmado. Terminamos o primeiro vôo. Fizemos o segundo e voltamos para casa satisfeitos. Tudo o que o Lucas Silvano queria dizer é que agora era "piloto". Mas o grande erro não estava previsto. A confiança demasiada, aliada ao erro de ensinar com um equipamento inadequado para um iniciante, deixaram tristeza e prejuízo, no final de semana seguinte.

Decolamos. O Lucas voou e o pai, orgulhoso, esqueceu de ser somente o professor. Num vôo muito baixo, um roll descendente, sem condições e nem tempo de recuperação, colocou fim ao Loaded Dice. Achei que tinha perdido meu "piloto" pois ficou muito nervoso, assumindo a quebra do avião. Reverti a situação rapidamente, informando que ele somente estava aprendendo e que isto poderia acontecer.

Sem perda de tempo comprei um treinador, um Starflyer da Tevel e coloquei um motor que tinha guardado e estava sem uso e sem destino. O pessoal do clube logo apelidou o avião de "treinador de luxo" quando viu o conjunto, o Starflyer com um Saito 56 Golden Night no nariz. Mas com uma grande diferença: este era "o avião do Lucas".

Vou sempre aos sábados na pista e o Lucas vai comigo, ou mais tarde com a mãe, para voar e é ele quem leva o avião e o rádio. Normalmente só faz um vôo e não quer mais. Sei que não devo forçar nada, e sim deixá-lo a vontade para se desenvolver aos poucos.

O Tevel Starflyer é um treinador excelente. Tem um preço, voa maravilhosamente bem, o acabamento e o esquema de cores são muito agradáveis a vista e com um motorzinho quatro tempos comporta-se majestosamente.

Desnecessário mencionar que por mais talento que uma pessoa tenha, por mais orgulhoso que um pai seja, a iniciação no aeromodelismo tem que ser feita com um bom treinador.


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