João, um aeromodelista no céu.

      Como todo bom brasileiro João gostava de futebol, mas no dia que viu um aeromodelo voando foi acometido por uma paixão arrebatadora, que se transformou num longo caso de amor pelo aeromodelismo. Na cabeça um só pensamento: comprar um aeromodelo, treinar e começar a sentir-se livre, voando como os pássaros, mesmo com os pés no chão.

      Os dias vão passando e ele consegue realizar o tão esperado sonho: compra o seu primeiro aeromodelo, e com a ajuda de um amigo monta o seu primeiro asa alta ARF. Que alegria! Mas agora ele tinha um novo sentimento dentro de si, ansiedade. Porque não chegava logo aquele tão esperado final de semana para ele começar seu treinamento? As horas não passavam, os dias não queriam amanhecer, que sofrimento o nosso João estava passando.

      Finalmente chega o tão esperado dia e lá vai ele para a pista, todo orgulhoso com o trainer novinho, caixa de campo com tudo que tinha direito. Ao chegar lá os novos amigos o rodeiam, dão as boas vindas e começa aquela festa. Como era gostoso escutar aquele barulho dos motores chegando aos seus ouvidos, e o cheiro do combustível? Para até um perfume entrando por suas narinas. Tudo era emoção!

      Abastecido o trainer, rádio checado,faltava começar a amaciar o motor. Seguindo o que dizia o manual, e após realizar o procedimento, instrutor liga o cabo trainer ao rádio do João, passa-lhe então as primeiras noções sobre os comandos. Estava chegando a hora, pensou João, e realmente estava. Apartir daquele dia nunca mais parou.

      A paixão era tanta que logo ele estava montando os seus próprios aeromodelos e claro regulando os seus motores. A cada dia que passava mais e mais experiência o nosso amigo João adquiria.

      Os anos vão passando, já fazia uns 5 anos que ele voa. Em seu grupo de aeromodelistas existia um que era de Remanso/BA, uma cidade a 200km de Petrolina/PE, onde João residia. Esse amigo o convida para juntamente com mais alguns amigos irem fazer uma apresentação em Remanso, no aeroporto local, onde praticamente não pousava nenhum avião. Acertados os detalhes, lá foram eles.

      Chegando lá preparam os aeros, a multidão era grande para ver aqueles homens que voavam com os pés no chão aqueles maravilhos "brinquedos". Começa o show, a multidão delira, as crianças não continham a alegria e queriam saber de tudo. Felicidade maior era a que estava estampada no semblante de cada um daquele grupo de amigos aeromodelistas.

      Eis que no meio daqueles expectadores existiam algumas pessoas que tinham vindo da cidade São Raimundo Nonato/PI, e não pensaram duas vezes: fizeram o convite a João para o mesmo ir a cidade deles e lá se apresentar. Convite aceito de imediato e logo logo estava lá o nosso amigo João arrumando os seus aeros no carro e seguindo viagem rumo a São Raimundo Nonato. A amizade cresce, João não para mais os finais de semana em Petrolina/PE. A cada sexta-feira a rotina se repetia, e a frequência era tanta que ele já não ficava mais em hotel.

      Além de ir voar, ele também passou a ensinar e ao mesmo tempo vender alguns aeros para os amigos.

      Ano 2001, se aproxima o feriadão da semana santa e o João não pensou duas vezes, seguiu viagem rumo a São Raimundo Nonato/PI. Voou na quinta, na sexta, e no sábado. Como estava sendo maravilhoso aquele final de semana. "Estava" até chegar o trágico domingo, dia 15/04/2001.

      Nosso amigo João chega à pista a tarde, faz alguns voos, conversa com os amigos. Final de tarde se aproxima, João resolve fazer mais um vôo, eram 5h e 20min quando seu aeromodelo apaga o motor no meio da pista e ele resolve ir buscá-lo, mas esquece de gritar que estava na pista. Nesse momento voavam além dele, dois outros amigos e de repente um trás seu aero em direção a pista, num típico procedimento de pouso e também não grita o tradicional "pouso". De repente alguém grita "tem gente na pista" ele enche o motor, tenta arremeter e por infelicidade do destino acerta em cheio o spiner do avião bem atrás da orelha do nosso amigo João, que nesse momento cai ao chão com a cabeça aberta pela violenta pancada.

      Não falou mais, não viu mais nada, nem sequer precisou receber atendimento. Estava morto no reino da terna e subia para voar no imenso céu.

      VAI PARA DEUS AMIGO, E DE ONDE ESTIVERES OLHAI POR TODOS NÓS.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

      A história relatada acima bem que poderia ser uma simples história, mas infelizmente é real e aconteceu de verdade. Tenho guardado comigo a mesma desde que tomei conhecimento do fato e falei com o Michael, filho do Sr. João Cleverson Coelho Monteiro. De inicio relutei em divulgar, mas como o próprio Michael, filho da vítima, e o Sr. Edson Maluf, Presidente da ABA, me falaram que tinhamos de divulgar o fato, mesmo que doloroso, mas com o intuíto de alertarmos os colegas aeromodelistas sobre o perigo que corremos ao não seguirmos procedimento básicos com relação a segurança.

Aeromodelo não é brinquedo, e se mal usado pode matar!


José Cleudomar Rebouças - PT-7390


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