Gabriel segurando aeromodelo recuperado por ele,
presenteado pelo saudoso campeão de Fórmula 1 Ayrton Senna ao empresário Antonio Ermirio de Moraes.

Um Mestre do Aeromodelismo Nacional

        Certo dia falava com o amigo Diágoras, quando ele me comenta sobre um dos Mestres do Aeromodelismo Nacional, Antônio Gabriel Nunes Machado. Passado algum tempo entrei em contato com o mesmo, e logo, na sua primeira mensagem de resposta, percebi o grande ser humano que vive debaixo daquela capa de homem frágil. Gabriel sofre de um problema na coluna que afeta sua locomoção mas não o impede de criar suas obras de arte. Com 57 anos bem vividos, 42 anos deles exercendo a profissão de Técnico em Eletrônica, profissão essa que tem lhe ajudado até hoje inclusive no aeromodelismo.

        Diante das limitações e dificuldades enfrentadas no seu dia a dia, não cruza os braços esperando que as coisas aconteçam, pois para ele nada é insuperável quando se luta e, sobretudo para quem nunca esquece que é filho Deus. Gabriel é um pernambucano arretado de bom, desses seres abençoados por Deus, otimista e alegre, amigo leal pra todas as horas, de poucas letras e grandes palavras. Face a dignidade, humildade e alegria com que executa seus trabalhos ele se torna grande, e mais ainda, quando consegue nos passar lições de que na vida o que realmente importa e tem valor é o que se conquista, principalmente a amizade.

        Poderia escrever bastante sobre ele, mas prefiro que o mesmo responda algumas das nossas perguntas.


Rebouças: Quem é Antônio Gabriel Nunes Machado?

Gabriel: Um pernambucano, casado, nascido em 04 de julho de 1943,  técnico em eletrônica a 42 anos e que reside no mesmo local da pequena fábrica de aeromodelos na Rua Lauro Sodré,115 - Afogados - Recife PE - CEP: 50.850-110, 

Rebouças: Quanto tempo de aeromodelismo?

Gabriel:  Tenho de hobby uns quarenta e lá vai o trem. 

Rebouças: Como entrou no hobby?

Gabriel: Bom quando criança, lá pelos10 anos, eu morava a 100 metros do Aeroclube e gostava de ver os aeros voando, então comprava na 4.400 uma antiga loja aqui em Recife, uns kit's nacionais, modelos movidos a elástico e depois fui pro U-control. Ai era voar e quebrar um bocado. Abandonei por um longo tempo por motivos de saúde e dinheiro. Retornei a alguns anos mais já com montagens, pois as condições físicas não davam mais devido a um problema sério na coluna que me afeta a função motora, e assim sendo me contento com as montagens e ver os amigos voando, mas de vez em quando um desses amigos que gostam de arriscar colocam o modelo bem alto e loucamente me entregam o rádio, dizendo que se quebrar, conserte. :))

Rebouças: Como e porque virou fabricante de aeromodelos?

Gabriel:  Um amigo me trouxe um motor, de um modelo que ele comprou no ferro velho, para ver se eu conhecia. Foi ai que despertou novamente o gigante adormecido, fiquei procurando aqui em Recife onde vendia e não encontrei nem revistas do ramo, aborrecido e como sempre teimoso, fui a SP e lá comprei um kit e montei, agora só restava saber onde voar. Perguntando consegui, mas quebrou quebrei o modelo na primeira vez, recuperei, e os aeromodelista quando viram o reparo queriam saber quem havia feito. Respondi ter sido eu, e a partir dai começaram os pedidos, mas como não tinha loja de revenda só a lojinha no aeroclube sem nada para vender, resolvi fabricar.

Rebouças: Porque o nome Dragon para a loja?

Gabriel: Porque quando comecei foi muita luta, dificuldades, adversidades, uma verdadeira guerra, e sem querer jogar confetes em mim mesmo fui um guerreiro em luta com um dragão, dai a escolha do nome Dragon.

Rebouças: Explica ai esse teu lado de entendido em eletrônica.

Gabriel: Tudo começou com meu pai era técnico e eu ajudava, enrolando transformadores e bobinas trocando peças, fios, etc. Muito criança ainda, mais lia bastante sobre o assunto e fui me aperfeiçoando até elaborar a primeira sub-estação de TV, pois na época não tinha a Globo, o sinal era fraco e era necessário reenviar os canais para o interior.  A primeira que montei foi em Caruarú depois Aracajú, dai Salvador, etc. e etc. Logo em seguida entrei na era digital, pesquisei e consegui chegar onde estou, o que é a única coisa de que muito me orgulho. Consegui tudo isso sendo analfabeto, pois nunca frequentei uma escola.

Rebouças: Jet Dragon é o nome de um de seus modelos e fica claro o nome pelo estilo do avião, o trainer Dragon claro que foi em homenagem a loja, mas o modelo asa baixa, irmão gêmeo do Starfire, o CARCARÁ, porque o nome?

Gabriel: Quis homenagear a nossa águia nordestina e já que é um modelo fabricado no nordeste achei por bem colocar o nome Carcará.

Rebouças: Você ainda voa? Ou só no simulador?

Gabriel: Nem no simulador o que é uma pena, mais o que fazer a coluna velha não deixa e os médicos, estes caras que não entendem nada, querem ainda por cima que eu fique deitado, levantar só para o sanitário, :)) vê se pode?

Rebouças: Em nossas conversas você sempre me passou uma grade paixão pelo aeromodelismo. Qual o grau de satisfação em montar um modelo e ver o sorriso de felicidade do cliente?

Gabriel: Posso te garantir sem medo de errar que tanto o aeromodelismo como a eletrônica  me deixam em êxtase total. Quando nós terminamos um modelo ou projeto eletrônico e vemos nos olhos do proprietário um brilho, que só quem faz com amor pode ver, é realmente fantástico. Eu sou um felizardo, pois faço o que realmente gosto, não me envergonho de ser sincero em dizer que já chorei quando vi destroços de aeromodelos que construi. Na realidade é bem maior a satisfação do que ter um filho, que a Gabriela não me escute. :))

Rebouças: Você acha que o mercado brasileiro poderia absorver melhor os modelos fabricados por aqui? 

Gabriel: Sim,  sem dúvidas, mais infelizmente a maioria dos aeromodelistas brasileiros ainda dão mais valor a importados.

Rebouças: Você trabalha direto na linha de montagem ou só supervisiona as coisas?

Gabriel: Trabalho sim, com os kit's mais sofisticados, e ainda em alguns casos entro na aplicação do monokote quando as moças se enrolam.

Rebouças: Tens idéia de quantos modelos já montastes?

Gabriel: Infelizmente não, mais posso garantir foram muitos mesmo.

Rebouças: Outro dia falastes na lista já teres montado acima de 30 modelos Extras da CG. Este modelo continua sendo o preferido do aeromodelista intermediário/avançado? 

Gabriel: Sem dividas.

Rebouças: Qual modelo te deu mais emoção em montar? 

Gabriel: O legendário Zepelim totalmente dirigível elaborei todo o circuito eletrônico, e consegui dirigibilidade sem servos algum, este foi fantástico mesmo, pena que para vôo indor. Esse eu consigo pilotar pois é lento demais e vou da garagem até a cozinha retorno sem maiores atropelos.

Rebouças: Qual te deu mais trabalho? 

Gabriel: Um Cesna Sky Line todo completo.

Rebouças: Lembras do primeiro modelo montado?

Gabriel: Sim um Tamanco B.

Rebouças: Já montou algum modelo, exclusivamente para participar de um campeonato? 

Gabriel: Não.

Rebouças: Já montou algum avião escala da Primeira Guerra Mundial? 

Gabriel: Sim.

Rebouças: O que você acha da lista de aeromodelismo, do papo diário?

Gabriel: Se melhorar vai estragar tudo, foi ai que eu fiz muitos amigos bons como você e tantos outros.

Rebouças: Você acha que aumentou o número de clientes depois que você começou a frequentar as listas?

Gabriel: Sem dúvidas nenhuma ficamos mais conhecidos.

        Depois desse papo gostoso com o Gabriel, só posso deixar a ele o meu muito obrigado e jogar uma frase no ar: 

"O espírito se enriquece com aquilo que recebe; o coração com aquilo que dá."(Victor Hugo)

José Cleudomar Rebouças - PT-7390


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